
Resolvi voltar para Campinas depois de passar uma temporada no Rio, visitando meus pais, meus irmãos, curtindo a cidade maravilhosa, e minha mãe decidiu vir comigo.
Havia chovido muito na véspera, e o dia continuava nublado, mas nada que pudesse prejudicar nossa viagem. Tudo parecia perfeito, tranquilo, mamãe e eu "trançávamos um tricô" até a parada habitual do ônibus.
O restaurante bastante movimentado, não tirou o bom humor dela. Fizemos um lanche, tomamos um sorvete, delícia que não desprezava, voltamos e nos acomodamos nas poltronas, esperando o horário da saída.
As horas foram passando, passando, as pessoas começando a reclamar, e nada, o ônibus não saia. Depois de algum tempo a empresa através do motorista mandou um comunicado, dizendo que havia caido uma barreira na estrada e não dava para passar, e que iríamos voltar para o Rio.
Alguns passageiros, provavelmente com medo, aceitaram a proposta da empresa para voltar , entretanto a maioria não , e mamãe era uma delas.
Ela era uma lady, uma vovozinha às antigas, composta com seu colar de pérolas, descendência inglesa que muito se orgulhava, mas... tinha o sangue quente, veia portuguesa, e resolveu agir. Plantou-se na entrada do ônibus, usou de palanque a escadinha, e começou a discursar, arrebanhando os indecisos. Eu não sabia o que fazer, era arriscado impedir, deixei.
- Nós viemos aqui, para fazer um lanche?? Falava fazendo gestos levando as mãos à boca, a la Renato Aragão.
_Eu paguei a passagem para Campinas, não vou voltar para o Rio, vou para Campinas...e ninguem vai me impedir ... e foi por aí a fora.
Os passageiros vendo aquela mulher de cabelos brancos, com mais de 80 anos, fazendo aquela arruaceira toda, se uniram à ela, e aos brados, braços estendidos ao alto, gritavam :
_Vamos para Campinas, vamos para Campinas de qualquer jeito!!!
Ganharam. Mamãe foi ovacionada.
A empresa mudou o itinerário , passamos por lugares jamais conhecidos, perigosos até, mas chegamos em Campinas sãos e salvos.
Foi cômico, ela era osso duro de roer.